18 agosto 2018

partida

18 Agosto 1951

Ingrata esta vida, que nos faz amar e partir.
Mas que seríamos nós sem o amor? Que seríamos nós sem as memorias afectivas?
Recordar-te-ei para sempre - quando ouvir as rolas, os sinos da igreja, as Pascoas e os Natais.
Saudades dos que planam na linha do horizonte.
Saudades de ti já.

(para Olguita)
com carinho
a.


02 julho 2018

O Doutor "Prata" António Carlos Ferreira Soares

DOUTOR PRATA

O Dr. Antonio Carlos Ferreira Soares nasceu no dia 5 de Fevereiro de 1903 em Viana de Castelo, no seio de uma família distinta. Quis o destino que o “Dr. Prata” (como era conhecido pelos populares) vivesse num período marcado pela limitação da liberdade. Médico de formação, as suas qualidades transcendiam a do simples terapeuta que tratava os doentes. A sua vontade de liberdade e capacidade de escrita encaminham-no para a Revista Seara Nova, principal meio de divulgação das ideias anti-salazaristas. A 22 de Setembro de 1936 assume-se finalmente como lutador pela liberdade. Certamente foi uma decisão extremamente reflectida, já que as consequências desta decisão eram terríveis.A partir deste momento passa a ser alvo de perseguição e a clandestinidade é a única solução. Viver na clandestinidade significa perder a família, o nome, a casa e a tranquilidade. Nestes primeiros anos de ditadura, a perseguição a opositores do regime é tremenda.
Todos os que expressam opiniões divergentes das de Salazar são condenado à prisão e mesmo à morte. Os seus esconderijos favoritos localizavam-se na freguesia que o viu crescer como Homem de ideais democráticos. Um dos locais era a Igreja da freguesia. O pároco Abel escondia o amigo. Outro dos locais prediletos de refúgio era a Japoneira do cemitério de Nogueira da Regedoura.
O “Dr. Prata” tinha o dom da palavra. Numa manhã de Fevereiro de 1940, no funeral de uma jovem de 22 anos, o Dr. Carlos Ferreira Soares provoca um sentimento de revolta nos populares. As lágrimas e os aplausos misturam-se quando o Senhor doutor explica que as razões da morte desta jovem. A fome e a miséria que este regime implementou às populações mais desfavorecidas. Quando a Polícia política chega já o “Dr. Prata” tinha fugido. Mesmo na clandestinidade o médico prestava apoio às populações. Era médico na Associação Fúnebre de Socorros Mútuos de Grijó e fornecia medicamentos gratuitos. Esta vontade de ajudar levou-o à morte. Os seus disfarces duravam pouco tempo. Certa noite, dois agentes disfarçados de vendedores de cera aparecem numa mercearia vizinha da Associação. Questionam um jovem, que por lá estava, sobre os médicos que prestavam serviço na Colectividade e conseguem todas as informações que necessitavam.
Poucos dias depois, seis agentes estavam, ingenuamente, nas imediações da Associação. Tanta gente desconhecida numa terra pequena levantou suspeitas e rapidamente a população percebeu o que se estava a passar. O Dr. Carlos refugia-se rapidamente na casa mais próxima.
Não teve a mesma sorte no dia 2 de Julho de 1942. Foi morto com vários tiros de metralhadora à queima-roupa.
A Japoneira foi cortada. Nogueira da Regedoura estava de luto. A rede da Polícia Secreta funcionou outra vez. Mais um lutador pela liberdade se calava às mãos do Regime Salazarista. Muitos outros haveriam de morrer. Nos próximos tempos sairá um livro bastante completo sobre a vida deste lutador escrito pelo Dr. Armando Silva, co-autor da Monografia de Nogueira da Regedoura. O mais grotesco nisto tudo é que ainda existem portugueses (e muitos) que votam em Salazar como o maior português de sempre.



Logo após o assassinarem a PIDE, deixou o corpo numa casa de saúde, enquanto festejava numa pastelaria da rua 19 em Espinho “Ponto Chic”, onde o dono Elias Tavares abriu garrafas de champanhe celebrando com a PIDE ente gargalhadas e gritos “morte aos comunistas!”
Há testemunhos vivos. O camarada Russo o garoto das mensagens, actualmente com 78 anos e mantendo ainda hoje “tudo na cabeça sem se esquecer”, para além da família, vizinhos, camaradas e amigos. O povo em Nogueira da Regedoura e Espinho, quando soube do assassinato gritava entre soluços: “MATARAM O MEDICO DOS POBRES!” Não são histórias, muito menos mitos!
A História do PCP foi/é feita, com homens e mulheres de honra, Resistentes. Ainda hoje, nos devemos curvar pelo respeito que nos merecem! Felizmente, muitos desses Heróicos Resitentes estão vivos, para nos poderem contar! É o branqueamento do fascismo que estão a fazer. Este governo, agradece!


O livro, completamente esquecido, de A. Ferreira Soares, Casa Abatida , reeditado pela Guimarães nos anos cinquenta (?), tem uma dedicatória "à memória do seu filho o médico Antonio Carlos Ferreira Soares". Não é comum um pai dedicar um livro a um seu filho adulto, nem que este o seja à "memória", ou seja a um morto. Mas António Carlos Ferreira Soares não morreu de morte natural, mas sim assassinado pela PIDE em Julho de 1942.

(O Dr. Antonio Carlos Ferreira Soares era primo do meu pai, 14 anos mais velho)


FADO DA JAPONEIRA

I
Japoneira, Japoneira
Do cemitério de Nogueira
São meigas tuas folhinhas
Estás caladinha e não ralhas
Diz-me entao quem agasalhas
Debaixo dessas ranquinhas!
II
Ó japoneira querida
Por todos és conhecida
É tão triste a tua ausência
Tu, japoneira com dores
Vais deitando tuas flores
Em cima da inteligência.
III
Os teu botões cor de ouro
Quis ter aos pés teu tesouro
O que abraçou rico e pobre
E tu, linda japoneira
Vais com as raízes à beira
Do berço da alma nobre!
IV
As tuas flores encarnadas
Sao lagrimas orvalhadas
Sempre a cair nesse chao
Sao tao brandas e tao belas
Que o povo tem o mais delas
Metidas no coraçao
V
Ó raíz que vais andando
Por sobre terra mimando
Quer-lhe chegar com as pontinhas
Ao amigo que eu conheço
Faz-me o favor que eu te peço
É dar-lhe saudades minhas
VI
Ó raparigas casadas
Que vos achais magoadas
E o coração em pedaços
Lembrai-vos dessas mãozinhas
Tantas mães e criancinhas
Foram salvas nesses braços
VII
Ó noites amarguradas
Tantas delas pernoitadas
À sombra do acipreste
Às vezes fico a pensar
Que ainda has-de gozar
O bem que por cá fizeste
VIII
Essa tragédia hedionda
Onde oculta a negra sombra
Nao deixeis de ir a Nogueira
Ide ver as flores bonitas
Quando vos vires aflitas
ide ao pé da Japoneira
IX
Ó Pedreira da Murraça
Que nao vejo o que te faça
Dou-te todo o meu prestigio
Tantas noites tantos dias
Fugindo ao inimigo
Foste o meu esconderijo
X
O regime de um carrasco
Que para o povo foi mais fraco
Como diz o vocabulário
Eu aqui vos deixo dito
Que muito me vi aflito
Este pobre Apolinário
XI
Morre o rico, morre o pobre
Morre o berço da alma nobre
O morrer é uma carreira
Morre o homem da ciência
Morre a grande inteligência
Morre também a japoneira

(Apolinario Gonçalves)
Julho de 1942

***

Uma árvore à Beira do Caminho

Perto de Espinho havia uma árvore
havia uma árvore à beira do caminho
E havia um buraco naquela árvore
perto de Espinho.

(E o povo sabia que havia um buraco
naquela árvore à beira do caminho.)

Mas quando vieram os embuçados
à procura dum médico em terras de Espinho
o povo calou-se não disse nada.
(E o povo sabia que havia um médico
naquela árvore à beira do caminho.)

Esta é uma história que todos sabem
em terras de Espinho.
Esta é história duma árvore
à beira do caminho

Era noite cerrada noite negra
era noite de morte no caminho.
E de repente chegaram os embuçados:
procuravam um médico em terras de Espinho.

Era noite sem lua noite de emboscada
noite de um homem não andar sozinho.
Por isso o povo não disse nada:
era noite de embuçados no caminho.

Disseram ao povo que havia um ferido.
Mostraram as mãos: seria sangue? seria vinho?
E ninguém foi chamar o médico escondido
naquela árvore à beira do caminho.

Era noite sem lua noite de sangue
era noite de esperas no caminho
Embuçados chegaram. Embuçados partiram
Procuram um médico em terras de Espinho

Já corre um mensageiro para aquela árvore
à beira do caminho
Há embuçados. falaram dum ferido
Mas o sangue que vimos era vinho

Já o médico sai do seu buraco
naquela árvore à beira do caminho.
(Ai a noite sem lua
aí o sangue tem a cor do vinho)

Catorze balas o esperavam
catorze balas o mataram nessa manhã em Espinho
as mãos do povo vinham florir
aquela árvore à beira do caminho.

Mas todos os anos na mesma manhã
em que o sangue corre nessa aldeia de Espinho
as mãos do povo vinham florir
aquela árvore à beira do caminho.

Mas no dia seguinte no mesmo dia
em que havia uma árvore (perto de Espinho)
as mãos do povo vieram plantar
outra árvore à beira do caminho.

De quando em quando voltam os embuçados
e cortam a árvore do povo de Espinho.
Mas há sempre alguém para plantar
outra árvore à beira do caminho.

29 maio 2018

Fausto Neves

Oriundo de uma família com tradições musicais, Fausto Neves (neto do maestro Fausto Neves, autor da musica "Senhora da Paz" - Miraculosa) iniciou os seus estudos na Academia de Música de Espinho — sua terra natal — e completou-os no Conservatório de Música do Porto, na Universidade Laval (Canadá) e no Conservatório de Música de Genève (Suíça). Nesta última escola, concluiu o Prémio de Virtuosidade, aprofundou também os seus conhecimentos nos domínios da Música de Câmara e da Análise Musical e foi admitido no seu corpo docente. Discípulo de Helena Costa, estudou ainda com os pianistas Robert Weizs, no Canadá, e Harry Datyner, na Suíça.

Frequentou seminários com Sequeira Costa, Moura Castro, Josef Palenicek e Jörg Demus. Apresentando-se em público desde muito cedo, estreou-se como solista da Orquestra Sinfónica do Porto aos catorze anos, sob a direcção do maestro Silva Pereira. É convidado frequente das mais importantes organizações e festivais de música nacionais, tendo actuado ainda na Suíça, no Canadá, em Espanha, na França, no Brasil e na Itália, e gravado para a RTP, RDP e TV Cultura (Brasil). Colaborou ainda com os maestros Arpad Gerezs, Gunther Arglebe, Graça Moura, Álvaro Salazar, Kamen Goleminov e Marc Tardue. Dos inúmeros instrumentistas com quem colaborou em Música de Câmara destacam-se a violoncelista Gisela Neves (CD "Alla Danza"), o pianista Álvaro Teixeira Lopes e, integrando o quarteto de dois pianos e percussão, o pianista Pedro Burmester e os percussionistas Miguel Bernat e Manuel Campos.

A sua actividade docente desenrolou-se nos Conservatórios de Música de Sion e de Genève (Suíça), no Conservatório de Música do Porto, na Academia de Música de Espinho, na Escola Superior de Música do Porto, na Escola Profissional de Música de Espinho e na Universidade de Aveiro. Foi assistente da pianista Helena Costa nos Cursos de Música de Espinho e é solicitado frequentemente a reger Cursos de Interpretação e de Pedagogia Pianísticas em Portugal e no estrangeiro. Detentor do 1º Prémio do Concurso "Cidade da Covilhã", entre outras recompensas, é regularmente convidado a integrar júris de concursos nacionais e internacionais.



13 maio 2018

A Miraculosa

SÚPLICA À SENHORA DA PAZ

(Miraculosa)

Nossa Senhora, Mãe de Jesus,
Dá-nos a graça da tua luz.
Virgem Maria, Divina Flor,
Dá-nos a esmola do teu amor.

Miraculosa, Rainha dos céus
Sob o teu manto tecido de luz,
Faz com que a guerra se acabe na terra
E haja, entre os homens, a paz de Jesus. 

Nossa Senhora, Mãe de Jesus,
Dá-nos a graça da tua luz.
Virgem Maria, Divina Flor,
Dá-nos a esmola do teu amor.

Se em teu regaço, bendita Mãe,
Toda a amargura remédio tem,
As nossas almas pedem que vás,
Junto da guerra, fazer a paz!

Pelas crianças, flores em botão...
Pelos velhinhos sem lar nem pão..
Pelos soldados que à guerra vão...
Senhora escuta nossa oração!

Miraculosa, Rainha dos céus
Sob o teu manto tecido de luz,
Faz com que a guerra se acabe na terra
E haja, entre os homens, a paz de Jesus.

Almas no exilio da escravidao
Pedem auxilio da Tua mao 
E vao de rastos por toda a parte
De olhos nos astros, a procurar-Te!

Se a Tua Graça, por onde passa
Vence a desgraça mais desgraçada,
Nesta amargura que nos tortura
Põe a doçura duma alvorada!

Miraculosa, Rainha dos céus
Sob o teu manto tecido de luz,
Faz com que a guerra se acabe na terra
E haja, entre os homens, a paz de Jesus.

Fausto Neves (musica)
Carlos de Moraes (letra)

O original da musica está no Santuario de Fatima e foi entregue ha 32 anos por Mário Neves, filho de Fausto Neves




A minha prova da 4ª classe (1958)




29 janeiro 2018

a visita

(texto da minha irmã mais nova)

a visita

Sempre impecavelmente aprumada, outrora andaria numa azafama, entre a loja, que ficava na frente da casa, e os afazeres domesticos.
Recebia-nos com alegria, mas nao nos dava prioridade, primeiro estava o negocio.
.
Tudo estava irreconhecivel. Agora tinhamos que ultrapassar várias rotundas até chegar à aldeia. Foi bom a Ró ter ido comigo. Nas entrelinhas dos seus profundos suspiros de “ai-meu-deus”, dava-me instruções: vira aqui, vira ali - caso contrário ter-me-ia perdido.
O jardim da frente da casa também estava encurtado, por causa da estrada. Ainda bem que sobrara espaço para manter as roseiras.
Recuei no tempo.
.
Às vezes conseguimos recuar no tempo e ficarmos inocentes. Conseguimos imaginar que tinha sido bom ali. Noutra altura teria conseguido recuar até àquela tarde de férias de verão quente.
A igreja ainda era visível dali.
Sentamo-nos todos à roda de uma mesa no jardim. Havida limonada fresca, com água do poço. O som das rolas chegavam até nós, pena que o das galinhas também.
Os pátios tinham sido regados com água para tornar tudo mais fresco, Depois do fausto almoço, e sem vontade para lancharmos, havia quem já se atrevesse a elaborar a ementa do jantar. Depois de algumas sugestões eliminadas conseguiu-se reduzir o menu para uma salada russa (que iria ser servida bem fria) com uns filetes de pescada fresca. Para a sobremesa haveria pão-de-ló e melão fresco.
Fui muito feliz naquela casa.
.
Recuei no tempo e senti pesar.
Abrimos o portão, torneamos a casa.
A empregada tratava da roupa e disse – ela hoje está melhorzinha, já desceu mas subiu de novo.
.
Quando me viu, no seu ar canónico tentou esboçar um sorriso de alegria. Talvez até fosse um grande sorriso, já não tinha força para o transmitir por esgar.
.

(para O.)

a.



04 outubro 2017

Cheiros (parte I)

(este texto foi escrito pela minha irma mais nova)

CHEIROS (Parte I)

Não caíra o Governo de Salazar. Ele simplesmente morrera.
Levei de recomendações de casa para que,  quando chegasse, não contasse nada à Vóvó.
Finalmente os cheiros, caruma, eucalipto, o estrume do gado do vizinho…mas o melhor ainda estava para vir: o cheiro a leite fresco que de certeza ia ter à minha espera.
Era sempre agradável ir para a aldeia.
Adorava os cozinhados da minha avó. Ainda hoje recordo aqueles croquetes de batata (em alguns locais chamam-lhe trouxas de carne), douradinhos e acabados de fazer. Sentia-me uma princesa. A mesa girava à minha volta, ou melhor dizendo à volta dos meus paladares.
Não havia frigorífico, mas havia um compartimento muito fresco e cheio de prateleiras onde se guardavam os alimentos. Não havia supermercado mas sim a Herdade, onde tinha de tudo. Olhavam-me sempre de alto a baixo a fim de admirarem ora os meus olhos, ora o cabelo, ora o tom de pele (pois, a menina tem ido para a praia? – quem é? interrogavam-se – ah, é a mais nova da Lena de Espinho). A Herdade tinha um cheiro muito característico. Nunca encontrei ao longo da minha existência uma miscelânea de cheiros como lá. Era uma mistura de café acabado de moer-sabão clarim-açúcar refinado- bacias de plástico-marmelada-e outros que nunca soube identificar. Aqui também tinha uns maravilhosos rolos de chocolate maciço.
Para mim o dia era dividido em quatro: a manhã onde se respirava a frescura da noite, ao meio do dia com um calor insuportável e do qual nunca fui adicta, o maravilhoso fim da tarde onde às vezes me era permitido regar e podia molhar os pés em água fria sem levar um raspanete, e o anoitecer. Cada parte do dia tinha o seu cheiro. Ao fim da tarde também costumava ir para a cave (chamavam-lhe loja) andar no baloiço que estava pendurado nas traves da casa. Voava até as minhas tranças começarem a bater no tecto...a partir daí abrandava. Era um local bem fresco em contrapartida do calor de verão. Talvez a terra batida ajudasse àquela agradável temperatura.
Naquele tempo não deveria haver salmonelas, pois eu comia as gemadas que queria. Aliás, era uma obrigação a ingestão diária de gemadas.
No dia a seguir à minha chegada, tinha sempre por obrigação de ir às Cavadas, a casa da Fatinha, para me pesar. O objectivo da estadia na aldeia era de aumentar peso. Às vezes ia buscar a Nené a casa para irmos juntas – talvez fosse uma forma dela se distrair.


Era ja noite. Abri o portão, subi a ladeira, e ali estava ela estendendo-me os braços sempre tão carinhosos. Beijou- me. Senti um aconchego enorme naquele roçar de face na face e daquele hálito a maçã.

- Vóvó!!!!! O Salazar morreu!!!

bjs
a.

(para todos os que fizeram parte da minha infância)

26 agosto 2017

a casa dos titios

...quando o meu irmao nasceu, eu deixei de comer, talvez por ciumes, eu tinha apenas 1 anito e pouco A minha tia, que nao tinha filhos, mas tinha uma paciência levada da breca, começou a levar-me lá para casa e quando me entregava dizia: ela comeu e bem! e a minha mãe: nao entendo, ela aqui nao come nada... Foi assim que eu comecei a ir comer todas as noites a casa dos meus tios...

18 maio 2017

as minas de Volfrâmio

O VOLFRAMIO EM AROUCA


A quando da II Guerra Mundial (1939-45), Arouca transformou-se num "El Dorado" português.
Em virtude de haver grandes quantidades de volframio, sobretudo em Rio de Frades e em Regoufe, milhares de pessoas de todo o País deslocaram-se para Arouca, para aqui tentarem a sua sorte.
O volframio era essencial para o fabrico de peças de artilharia e era altamente disputado quer pelos aliados, quer pelos alemaes.
Salazar sempre fez um jogo duplo na exploração e na comercialização do volframio. Portugal não esteve envolvido na II Guerra Mundial devido ao volfrâmio e à manhosa "neutralidade activa", praticada por Salazar.
Em Arouca, Salazar deu concessões mineiras aos ingleses em Regoufe e a 5 Kms de distância, em Rio de Frades, ficavam as explorações dos alemães, chefiados pelo germânico Kurt Dithmer e que era também o representante da empresa siderúrgica alemã Krupp.
Em Arouca, para os dois beligerantes em conflito, apenas interessava extrair o maior nº de toneladas de volfrâmio. Não consta que tenha havido conflitos entre eles, nos encontros ocasionais nas ruas da Vila.
Quer os ingleses, quer os alemães construíram estradas para permitir o escoamento do minério extraído. Construíram também bairros sociais para alojar os mineiros, sendo as condições de habitabilidade dadas pelos alemães muito superiores às concedidas pelos ingleses.
O preço do volframio dependia do curso da guerra. A partir de 1943, sobretudo depois do "dia D" (desembarque na Normandia), as coisas começaram a pender para o lado dos aliados e os preços do volfrâmio começaram a descer. No período de maior procura chegou a vender-se minério a 1.500$00/kilo, tendo descido para 300$00.
No entanto, até esse ano, ganharam-se verdadeiras fortunas, quando se tinha a sorte de encontrar um bom filão.
Como era dinheiro ganho dum dia para o outro, também desaparecia rapidamente.
Cometeram-se autênticas loucuras: acender cigarros com notas, analfabetos compravam canetas Parker para trazer no bolso do casaco com um lencinho, usava-se um relógio em cada pulso, ia-se tomar café ao Porto, de táxi, porque o café em Arouca estava cheio e demorava muito tempo a servir.
Nesse período da guerra fez-se também muita contra-informação, sobretudo em Lisboa, no tocante a carregamento de volfrâmio em barcos. Os navios mercantes eram carregados de pedra, para um determinado destino, avisavam-se os inimigos, os barcos eram afundados e os exportadores ficavam a lucrar verbas astronómicas.
Em Arouca, ficou a memória dum tempo em que os mineiros não quiseram perder a oportunidade de serem ricos por um dia, de dormir em hoteis de luxo com companhia, de cometer extravagancias e maluqueiras de toda a espécie, de gastarem fortunas em jantaradas no Porto, em comprarem fatos bem feitos na Casa Inglesa, em terem aventuras com mulheres e terem gasto somas apreciáveis no jogo.
Neste momento, as concessões mineiras estão abandonadas, as construçoes estão praticamente todas destruídas e as maquinas das lavarias retorcidas.
O "El Dorado" terminou há 60 anos, em Arouca...



As minas de volframio de Arouca constituem património da arqueologia industrial que estão ainda ao abandono a aguardar urgente intervenção.
Rio de Frades e Regoufe são hoje dois lugarejos perdidos nos confins da serra, ambos situados em locais paradisíacos, que constituem um dos mais ricos patrimónios naturais do concelho, a merecer o tratamento adequado, no sentido de perpetuar na memória, um tempo de grandezas e misérias de um povo que aí buscou fortuna e encontrou quase sempre a glória efémera.
No lugar de Rio de Frades podemos ver ainda, em bom estado de conservação as muitas construções edificadas pela Companhia alemã, para alojar os muitos mineiros e também para os escritórios da empresa que durante cerca de cinco anos aí se dedicou à exploração de volfrâmio.
No lugar de Regoufe, para além da minas ainda em bom estado de conservação há todo um conjunto de edifícios que importa preservar, nomeadamente para fins turísticos, mas sempre sem alterar a traça original e preservando os espaços envolventes, para que se não perca a memória e o inestimável património que marcou profundamente a geração que atravessou os anos da Segunda Guerra Mundial.
As construções existentes no lugar de Regoufe, feitas pela Companhia inglesa, são bem mais simples que as edificações alemãs de Rio de Frades, mas, umas e outras merecem urgente intervenção, para que as intempéries e o abandono, façam com que se percam irremediavelmente.

Tio Ze de Macieira


tambem trabalhou nas Minas de Volframio

21 julho 2016

A Páscoa

(este texto foi escrito pela minha irma mais nova)

A Páscoa

O cheiro a fresias dilatava-me as narinas. Nos canteiros da Titia, espalhados pelas escadas e pelo corredor ladeado de flores, procurava os primeiros rebentos. Quando encontrava ficava deleitada. Inigualável aquele perfume. Fresco e suave, nostálgico até – jamais terei palavras para o definir.
Era o prenuncio da primavera e a Páscoa estava ali ao virar da esquina.
Primeiro vinha o Domingo de Ramos.
Neste dia levávamos à igreja um ramo com alecrim e oliveira para ser benzido no fim da missa das 10,00H.
Tudo era programado atempadamente.
A casa era limpa a fundo para receber a visita do compasso.
Cortinas, reposteiros, janelas… tudo era passado a pente fino.
As carpetes e tapetes eram lavados no grande tanque e o chão depois de minuciosamente esfregado era encerado. Quando a cera secava puxava-se o lustro. Ficaria lindo. O corredor brilhava logo de manhã quando entrava luz pelo quarto do Dito.
Havia ainda as cerimónias religiosas a que era obrigada a ir.
Nunca lhes achei muita graça, eram deprimentes, isso sim. Contudo, devo referir aqui dois aspectos que sempre me cativavam: as vestes cor de lilás e o cheiro a incenso.
Às 15,00H da Sexta-feira Santa deveríamos todos fazer um minuto de silêncio (às vezes emitia um som, muito baixinho, só para ver se me acontecia algo. Bah, continuava inteirinha, nada de novo acontecia. As minhas tranças continuavam no sitio, os meus joelhos esmurrados e o estúpido som das galinhas a cacarejar entrava pela casa.
Bom, passemos à parte que eu mais gostava: a cozinha. Adorava participar nas tarefas culinárias. A Ró batia as claras, a Lena e eu mexíamos as gemas com o açúcar e até o Dito ajudava na confecção dos cocos. Talvez por ser a mais velha cabia à Ró a tarefa de amassar o preparado para as bolinhas de chocolate. Invejava-a. Aquela tarefa deveria ser minha. Vá-se lá saber porquê mas nunca enjoava doces. (era quase obrigatório fazer-se: bolas de chocolate, quadradinhos de chocolate – feitos com a receita do bolo de noiva – bolo de coco, pudim francês, bolo de prata, bolinhos de coco, pão-de-ló, bolo de mármore, bolo mulato – conhecido entre irmãos pelo bolo leitoso – rolo recheado de geleia e talvez mais algum que não me ocorre agora).
Havia também regueifa da Páscoa, aliás havia sempre variadíssimos pedaços de regueifas da Páscoa, a mãezinha gostava de ter várias “amostras” da mesma. Tinham um sabor muito característico, talvez com um toque de Vinho do Porto.
Uma vez o paizinho e a Lena atreveram-se a fazer regueifa. Estava tão boa, mas tão boa aquela massa. Lindas! Ainda as vejo, por cozer, dispostas na mesa com tampo de mármore que havia na cozinha, já pinceladas de ovo e prontas para irem ao forno. Foi pena não terem desenvolvido. Conforme entraram, conforme saíram. Eram assim tipo umas regueifas anãs. Deu para rir apesar de todos lamentarmos o seu fraco, ou nenhum, crescimento. Porem, devo dizer que nunca comi regueifa tão boa.
A sala de jantar era preparada de véspera para a visita pascal.
A mesa grande era trocada por uma mais pequena para dar espaço à circulação do compasso. A “toalha da Páscoa”, imaculadamente branca, era então colocada.
No centro havia uma floreira em vidro, de cor salmão, com algumas flores e os verdes benzidos no anterior Domingo.
Havia os pratinhos rendilhados onde se colocavam amêndoas. Num deles ficava uma laranja golpeada com o folar para o padre. Noutro um pouco maior aparecia o Vinho do Porto e os cálices. Parte dos bolos eram cortados em fatias e dispostas em pratinhos. Lamentavelmente só podíamos comer os doces, depois do compasso passar.
Devo confessar que na noite Sábado para Domingo eu esgueirava-me até à porta da sala, fechada a sete chaves, e deliciava-me com bolinhas de chocolate. Não sei se alguém reparava, mas ficavam em numero idêntico ao que encontrava à entrada, só que um pouco mais pequenas.
Por fim vinha a excitação da entrada do compasso. A parte mais irritante era eu ter que beijar a cruz. Tentava sempre pôr a boca de lado para não lhe tocar – de relâmpago passavam-me sempre pela frente milhares de bocas sem dentes e de hálito suspeito.
Sobre o compasso, recordo ainda o som da sineta a aproximar-se (claro que às vezes era o simples sino que havia lá em casa e que alguém se lembrava de enganar a mãezinha, que toda aflita se aprontava de imediato a dizer: Eduardo, olha os verdes!!!! Espalha os verdes à porta!!!)

Para os meus pais e para os meus irmãos,
Com carinho
a.


(a última Páscoa em Cesár)

18 julho 2016

cresci

...naquela noite,  quando me meti debaixo da mesa da sala de jantar como habitualmente fazia, enquanto a titia ia à cozinha buscar a sopa, estava longe de imaginar que ao levantar-me iria bater com a cabeça no tampo.

a partir dessa data comecei a ter que me esconder de joelhos: tinha crescido e ninguem me avisou!

25 maio 2016

A Olguita

(texto da minha irmã mais nova)

A Olguita

Saíamos sempre, ao domingo. Afinal, morávamos numa cidadezinha turística.
Mesmo durante a semana, não era estranho irmos até à beira-mar, onde o picadeiro enchia na zona de verão.
A música tocava na Av. 8, emitida a partir de uma cabine de som. Scott Mckenzie convidava-nos a partir até S. Francisco ao lado de uma Gigliola Cinquetti que jurava a pés juntos "Dio como ti amo".
Roberto Carlos, entre outros estava no auge.
Um dia rezei para que ele me viesse buscar. Não disse nada a ninguém, para não dar azar e esperei por ele. De certeza que esperei sentada, caso contrário tinha feito varizes pelo corpo todo.
Nunca íamos com qualquer roupa para o picadeiro.
Quer de Inverno quer de Verão, deveríamos vestir a rigor. Mas no Verão era tudo mais bonito. Pelo Sol e pela roupa mais alegre.
Muitas vezes ía para Cesár passar as férias e "os" de lá vinham para cá.
A Fatinha, a Nené e a Olguita eram visitas assíduas na época balnear.
Traziam sempre imensos víveres, além da bagagem pessoal.
Lembro-me da bagagem da Olguita. Era sem dúvida a maior – digna de uma actriz de cinema.
- Para que queres essa porcaria toda? - perguntava eu?
- Nem é muita coisa…
Eu olhava para aquelas malas……Era cintos diferentes para cada toilette, sapatos, lenços, blusas, casacos…para não falar nos cremes. Para o Sol, para o dia, para a noite, para as rugas... credooooo - pensava eu, que passava bem com as minhas calças de ganga.
Antes de sairmos ela escovava 50 vezes o cabelo para ficar a brilhar. Tinha que esperar sempre por ela.
Depois…depois…valia a espera.
Orgulhava-me que todos olhassem para ela.
Orgulhava-me de a ter como prima.

a.

(para a Olguita, com todo o meu carinho)



25 abril 2016

Dia D

(mais um texto da caçulinha) 

Dia D

Era um prazer a visita da D. Angelina. 
Foi triste quando ela foi morar para Coimbra, mas a Alicinha tinha sido colocada em Coimbra para o estágio de medicina e seria tudo mais fácil. Agora me lembro, a Alicinha costumava sentar na cama o esqueleto, que lhe servia de estudo. 
A D. Angelina tinha uma voz muito agradável, e era uma boa contadora de histórias. Deliciava-me a ouvir episódios ora de Lisboa, ora de Carcavelos e até da Maria do Mar, filha de uns amigos lá de Lisboa. 
Gostava de ir a casa dela. Tinha uma gaiola, para mim gigantesca, cheia de periquitos. Era de um formato cilíndrico e terminava em cone. Encantava-me os sons daqueles pássaros. Ah, lembrei -me agora da vasta colecção de caixa de fósforos do Sr. Mário. Muitas delas tinham sido trazidas das colónias enquanto prestava serviço militar. 
Graças a ela, os estufados passaram a ser feitos num relativo curto espaço de tempo, com a introdução da panela de pressão. A mãezinha rendeu-se ao efeito mágico deste utilitário doméstico. Ficou tudo muito mais simples, se bem que de vez em quando fosse necessário dar um jeitinho à tampa da panela para a mesma funcionar. 
Às vezes vinha passar uns dias lá a casa e, se o sr. Mário estivesse de serviço viria ter com ela no fim de semana. Eram dias de azáfama doméstica diferente. 
Tinha chegado há dois dias. 
Quando acordei preparei-me para a escola e enquanto tomava o pequeno almoço, fui surpreendida por um burburinho. Algo se passava. Estava tudo com o ouvido colado ao rádio. 
- D. Helena, vou fazer as malas e parto no próximo comboio. Não sei se ele estará bem – o sr. Mário tinha o posto de major, e ela receava por ele 
Entretanto o paizinho, que já tinha saído há muito, voltou a casa e disse: 
- Nada de ajuntamentos. Se virem ajuntamentos afastem-se. 
Eu queria compreender a situação. Sabia que tinha havido uma revolução, mas nada mais sabia. 
Na escola foi-nos explicado o que se passava por uma professora: 
- Portugal vivia num regime fascista. Só havia uma opção política e quem fosse contra era torturado e preso. Ao longo destes dias, ser-vos-á explicado melhor, quer em casa, quer aqui na escola. Podem sair. Podem ir para a rua para comemorarem a Liberdade. 
Não se metam em confusões. Ser livre não é fazer tudo o que queremos. Não temos direito de ir contra a liberdade do outro. Temos o direito a partir de agora de lutarmos pelos nossos ideais. Não estranhem se virem alguns dos vossos professores, pelas ruas de Espinho gritando liberdade. Eu vou estar lá. 
Nada voltou a ser igual. 
Um dia o meu filho perguntou-me como era Portugal antes do 25 de Abril. 

Respondi: era a preto e branco 

Para os meus irmãos, 
Com carinho 
a.

15 agosto 2015

Mãe Mila

Morreu a "Mãe Mila" 

A sra. Emilia cuidou dos seus filhos e dos filhos das vizinhas enquanto elas iam trabalhar.
Não tinha curso nenhum, mas também nunca constou q houvesse problemas com as crianças.
De uma extrema bondade, comecei a admirá-la  desde criança e, ainda mais quando vi o marido ( q tinha ido para Venezuela e de vez em quando vinha passar umas férias e ostentar um grande carrão, como se isso fosse de grande importância na sua minúscula vida) dar-lhe uma grande sova e pontapeá-la pela rua 5 abaixo, estando ela grávida da filha mais nova.
Há 60 anos ninguém se metia porque ainda vigorava  aquilo "entre marido e mulher não metas a colher" e, se todos criticavam por trás e tinham pena dela, poucos se aventuravam a meter-se no meio dos dois.
Nunca me saíram essas imagens da cabeça, nem sequer quando a fui visitar, com a minha tia, à Misericórdia velha na rua 8, pois tinha nascido a cachopita, estava num bercinho aos pés da cama da mãe, olhei para ela espreitei bem e depois disse à minha tia quando viemos embora:  "tadinha" tão pequenina e já apanhou antes de nascer. :(

Adeus  "Mãe Mila" a gente um dia encontra-se do outro lado do caminho...


28 maio 2015

O Paizinho

(texto da minha irmã mais nova)

 O Paizinho


Ainda hoje exibo orgulhosa a pequena fotografia a preto e branco.

Ele já tinha cabelo, quase todo, branco, e eu ainda na escola primária andava.

Gostava de o ter conhecido com o cabelo às ondinhas. Um galã. Um autêntico artista de cinema.

Nunca mais esqueci o dia da foto. De mão dada, seguia altiva. Tínhamos ido à missa à Capela da Nª Sª da Ajuda. Depois fomos ver o mar, e foi aqui que apareceu o inesperado fotógrafo.

Pena ser a preto e branco. Levava metade do meu cabelo apanhado no alto da cabeça, onde era notório o grande laçarote branco. O vestido era rosa bebé, com umas aplicações, desde os ombros até à zona do umbigo, onde passava uma fita de seda igualmente rosa. Levava ainda um casaco de malha quente e de cor azul clara, feito pela mãezinha. Os sapatos eram pretos e de verniz, enfiados numas límpidas meias brancas.

Gostava de ver as fotografias a preto e branco que eram guardadas no álbum. Apresentava sempre um ar charmoso – os ossos ainda não se queixavam. Tinha realmente ar de galã, talvez tivesse sido assim que teve frutos na conquista do seu amor.

Um dia contei-lhe que em tempos tinha imitado a sua assinatura, para ele não ver as más notas da escola. Sorriu. O meu desabafo foi uma maneira de me redimir. Também lhe contei daquela vez, em que estando em casa sozinha com o Dito, distraímo-nos e começamos a jogar à bola. Azar, acertei em cheio no relógio de parede, que caiu – já não há relógios assim, pois não sofreu muitos danos. Até àquela data sempre pensou que o relógio tinha caído por desleixo do prego.

Quando me cabia a mim, a vez de limpar o pó no quarto deles, abria a porta do guarda-fatos e perdia-me entre o cheiro da roupa domingueira, sempre perfumada.

Foi muito bom tê-lo como pai – jamais o trocaria.

Foi bom vê-lo como avô.

(para os netos do meu pai)
com carinho
a.



13 maio 2015

1ª Comunhao

13 Maio 1955

Hoje é o dia da minha 1ª Comunhao. Nao tenho fotos do evento porque na altura nao havia dessas "chiquezas". Fui com um horroroso vestido cinzento com umas riscas coloridas, embora tivesse um lindo vestidinho branco. Mas como a Maezinha estava nas Termas de Monte Real e tinha deixado indicaçoes à Titia para eu "estrear" aquela "tripa", nao adiantou nada eu dizer que o Sr.Abade tinha pedido que quem tivesse vestido branco para levar. Disse ela: a tua Mae antes de ir disse para levares este vestido por isso é esse que vais levar, nao vou contra o que ela disse (porra, mas porque é que ainda nao existiam telemoveis naquela altura???)

Penso bastante nisso quando vejo a importancia que se dá de hoje em dia ao evento, nao a nivel religioso, mas comercialmente. Ha pessoas que se empenham para fazer a festa, que gastam o que têm e o que nao têm, que ficam a dever ao restaurante, mandam fazer roupinha nova e nao pagam... enfim, fazem a festa mais para os outros verem, que para eles mesmos.

A festa está dentro de nós, é verdade, mas que eu podia ter levado o meu vestidinho branco em vez daquela "tripa cinzenta" tambem é verdade verdadinha.


29 maio 2014

ó mãezinha, eu hoje nao choro!

...como fazia bem tomar banho de mar de manhãzinha, para termos menos gripes no Inverno, lá íamos nós, bem cedinho até à praia.
Naquele dia resolvi que não ia chorar quando o "banheiro" nos desse os 3 mergulhos forçados no mar.
Entao quando a minha mãe nos estava a arranjar em casa, eu comecei com uma lenga-lenga: "ó mãezinha, eu hoje nao choro!" "ó mãezinha, eu hoje nao choro!" devo ter dito o mesmo mais de 20 vezes.
O pior foi quando ao dobrar a esquina da rua se viu o mar: fiz outra vez semelhante berreiro que só parou como de costume, quando a minha mãe nos serviu o leitinho quente com cevada, levado na garrafa termos e o pãozinho com manteiga e aquele "banheiro" já estava bem longe...


05 abril 2014

A Moleirinha









A Moleirinha


Pela estrada plana, toc, toc, toc
Guia o jumentinho uma velhinha errante
Como vão ligeiros, ambos a reboque,
Antes que anoiteça, toc, toc, toc

A velhinha atrás, o jumentinho adiante!...

Toc, toc, a velha vai para o moinho,
Tem oitenta anos, bem bonito rol!...
E contudo alegre como um passarinho,
Toque, toque, e fresca como o branco linho,
De manhã nas relvas a corar ao sol.

Vai sem cabeçada, em liberdade franca,
O jerico ruço duma linda cor;
Nunca foi ferrado, nunca usou retranca,
Tange-o,  toc, toc, moleirinha branca
Com o galho verde duma giesta em flor.

Vendo esta velhita, encarquilhada e benta,
Toc, toc, toc, que recordação!
Minha avó ceguinha se me representa...
Tinha eu seis anos, tinha ela oitenta,
Quem me fez o berço fez-lhe o seu caixão!...

Toc, toc, toc, lindo burriquito,
Para as minhas filhas quem mo dera a mim!
Nada mais gracioso, nada mais bonito!
Quando a virgem pura foi para o Egipto,
Com certeza ia num burrico assim.

 Toc, toc, é tarde, moleirinha santa!
Nascem as estrelas, vivas, em cardume...
Toc,  toc, toc,  e quando o galo canta,
Logo a moleirinha, toc, se levanta,
Pra vestir os netos, pra acender o lume...

Toc, toc, toc, como se espaneja,
Lindo o jumentinho pela estrada chã!
Tão ingénuo e humilde, dá-me, salvo seja,
Dá-me até vontade de o levar à igreja,
Baptizar-lhe a alma, prà fazer cristã!

Toc, toc, toc, e a moleirinha antiga,
Toda, toda branca, vai numa frescata...
Foi enfarinhada, sorridente amiga,
Pela mó da azenha com farinha triga,
Pelos anjos loiros com luar de prata!

Toc, toc, como o burriquito avança!
Que prazer d'outrora para os olhos meus!
Minha avó contou-me quando fui criança,
Que era assim tal qual a jumentinha mansa
Que adorou nas palhas o menino Deus...

Toc, toc,  é noite... ouvem-se ao longe os sinos,
Moleirinha branca, branca de luar!...
 Toc, toc, e os astros abrem diamantinos,
Como estremunhados querubins divinos,
Os olhitos meigos para a ver passar...

Toc, toc, e vendo sideral tesoiro,
Entre os milhões d'astros o luar sem véu,
O burrico pensa: Quanto milho loiro!
Quem será que mói estas farinhas d'oiro
Com a mó de jaspe que anda além no Céu!


(Guerra Junqueiro)


06 abril 2013

O triciclo do Dito

...e daquela vez q eu resolvi dizer ao meu irmao mais novo, em virtude de ele nao me deixar andar no triciclo, que ia fugir para França?!

claro que só dei a volta ao "quarteirao", mas quando apareci na esquina, ja a minha mae estava à minha espera para me dar umas chineladas...

28 dezembro 2012

Iuri Gagarin

Iuri Gagarin: "A Terra é azul!"

* 12 Abril 1961 * 



(Kluchino, 9 março 1934 — Kirjatch, 27 março 1968)

Em 1960, Iuri Alekseievitch Gagarin (Юрий Алексеевич Гагарин) foi um dos 20 pilotos seleccionados, após difíceis processos de selecção física e psicológica, para o programa espacial soviético, e acabou por ser escolhido para ser o primeiro a ir ao espaço, pela sua excelente performance nos treinos, sua origem camponesa – que contava pontos no sistema comunista - sua personalidade magnética e esfuziante, e principalmente devido às suas características físicas – ele tinha 1,57 m de altura – já que a nave programada para a viagem pioneira em órbita, a Vostok, tinha um espaço mínimo para o piloto.

Em 12 de abril de 1961, aos 27 anos de idade, Iuri Gagarin tornou-se o primeiro ser humano a ir ao espaço, a bordo da nave Vostok 1, na qual deu uma volta completa em órbita ao redor do planeta e proferiu a famosa frase "A Terra é azul". Esteve em órbita durante 108 minutos.


23 janeiro 2012

Casa Amarela

CASA AMARELA 1

Na estrada la de casa
Tem uma casa amarela
Pé de rosa na varanda
E uma moçoila na janela

Passarinho so cantando
Pra chamar a atençao dela
E eu fico com ciumes
Por nao saber cantar

Nem tambem ser uma rosa
So pra ela cheirar
Na força do pensamento
E que eu posso cantar

Vem cá, menina
Menina linda, vem cá
Voce me faz dormir
Voce me faz sonhar

Os passarinhos vivem lhe cantando
As rosas querem lhe cheirar
O sol nasce pra te ver
e eu vivo pra te amar


CASA AMARELA 2

Toda vez que a cidade sufoca
Bate vontade de correr pro mar
Seguir as trilhas na boa e sem hora
Nem pressa alguma pra voltar

Um dia de sol
Na casa amarela e a noite a lua
Sobre ela
Os amigos da rua e a menina do sol
Sempre tao bela

Eu quero andar por la e entender
O que o céu quer dizer
Eu quero ver o tempo se abrir
Ficar a toa

Ouvir canções de Bob tocar
Pra nunca mais do teu azul
Me esquecer...

Um dia de sol
Na casa amarela e a noite a lua
Sobre ela
Os amigos da rua e a menina do sol
Sempre tao bela...

18 dezembro 2011

Goa, Damao e Diu

Goa, Damao e Diu - há 50 anos








A 18 de Dezembro de 1961, o pequeno territorio de Damao foi invadido pelas tropas indianas e, até ao final do ano, todo o espaço que constituia, na altura, o chamado Estado Portugues da India, seria integrado na Uniao Indiana.
O ano de 1961 é, por isso, uma data de viragem para o dito Imperio Portugues. O forte de S. Joao Baptista de Ajuda, na costa do Daome, depois de incendiado (por ordem de Salazar), fora entregue, às autoridades do antigo Benim, em 1 de Agosto de 1961. Mas desde finais dos anos 50, com as independências das antigas colónias de França e Inglaterra, e mais tarde da Bélgica, os sinais de mudança eram perceptíveis. Mas o Estado Novo não soube ou não quis entender esses sinais.
Em finais dos anos 50, já grupos de Satyagrahas (combatentes pacificos pela liberdade, inspirados em Gandhi) invadiam os territorios de Goa, Damao e Diu, de forma maciça e pacifica. Entretanto, na Emissora Nacional, ciclicamente, ouvia-se o estribilho: "Os sinos da velha Goa e as bombardas de Diu serão sempre portugueses!", ao mesmo tempo que se ouvia o dobre dos sinos; mais tarde, a palavra de ordem seria: "Angola, é nossa!" (mas foi por pouco tempo...)




24 setembro 2011

Totobola

24 Set 1961
Ha 50 anos "nasceu" o Totobola


estes foram os resultados:

1. Olhanense - Covilha ....................... 1-0 ......... 1
2. Salgueiros - Academica ................... 1-2 ......... 2
3. Leixoes - Benfica  .......................... 1-2 .......... 2
4. Sporting - Lusitano de Evora ......... 0-0 ......... X
5. Beira-Mar - FC Porto .................... 1-1 .......... X
6. Guimaraes - Atletico ..................... 1-3 .......... 2
7. Belenenses - CUF .......................... 5-1 ......... 1
8. Oliveirense - Braga ....................... 1-2 ......... 2
9. Caldas - Torriense ........................ 1-0 .......... 1
10. B. C. Branco - Sp. Espinho .......... 2-0 ......... 1
11. Barreirense - Seixal ..................... 3-1 ......... 1
12. D. Beja - Farense ........................ 1-4 ......... 2
13. Portimonense - Campomaiorense .3-1 ........ 1


28 maio 2011

Santa Teresinha

Sempre gostei muito da Santa Teresinha
Esta é uma das mais bonitas que conheci


15 novembro 2010

03 maio 2010

o vouguinha

...a gente ouvia o "vouguinha" e ja se sabia que ia chover.
agora já nao ha "vouguinha"... nem comboios...só ha chuva.

10 novembro 2009

A tia Alice

 29 Maio 1922 - A tia Alice - 7 Nov 2009

Coitada... nunca teve sorte na vida: o marido era pouco de trabalhar, dormia de dia vadiava de noite.
Mesmo assim conseguiram ter uma mercearia tipo tasca e a rapariga, de apenas 26 anos, com os dois filhos pequenos lá conseguia ir ganhando algum dinheirito para as despesas da casa.
O filho mais velho, de 2 anitos apenas, nunca teve um carinho do pai, que o detestava, motivo pelo qual quase foi criado pela avó materna.A menina, linda, loirinha de olhos muito claros era uma bonequinha, e dessa ele ja gostava, chamava-lhe a "minha menina".
Um domingo, ele disse para a mulher: arranja-te se quizeres e vai a casa da tua mae.
Ela ficou toda contente pois ele nunca queria que ela saisse  de casa. Lá foram os tres, a menina ao colo do pai, que nao se cansou de brincar com ela todo o caminho.
Depois de lá chegarem ele disse-lhe: se quizeres vai ver a procissao com as tuas irmas e logo à noite vai para casa que eu chego mais tarde, vou ajudar o meu tio a fazer umas coisas que ele me pediu.
Assim aconteceu uma tarde muito bem passada para as duas. Ao fim do dia foram para casa e ao chegar lá a rapariga encontrou tudo virado do avesso e notou a falta de algumas coisas, logo pensando: assaltaram-me a casa! Foi ter com uma vizinha e perguntou: Senhora Aurélia notou alguma coisa ou alguem hoje à tarde aqui em minha casa? Ao que ela respondeu: só vi o senhor Valdemar sair com umas trouxas de roupa...
Estava tudo explicado: o marido deixou-a com os dois filhos nos braços.
Que vida sofrida ela teve!
Lá foi ela recambiada para casa da mae outra vez, mas agora com mais duas crianças, que tentaram ser felizes como puderam.
Mais tarde o tribunal decidiu que o pai veria os filhos aos sabados, motivo porque o tio Joaquim os levou até ao parque para o 1º encontro.
O pai nao apareceu e as crianças nunca mais la foram.
Mais ou menos 15 anos depois receberam a noticia que o pai morreu num acidente de mota.
Todos se vestiram de luto, os filhos porque a isso foram obrigados pela avó que era muito rígida, mas a revolta do rapaz era tao grande, que mais tarde quando se casou nenhum dos seus filhos levou o apelido Henriques...